Embora o programa Desenrola tenha alcançado números recordes de renegociação, especialistas alertam que a medida oferece apenas um alívio temporário para o orçamento das famílias brasileiras. O sucesso na negociação de dívidas antigas não é suficiente para frear o avanço da inadimplência, que continua sendo impulsionada por fatores estruturais profundos na economia do país.
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) revelam que cerca de 80,9% das famílias possuem algum tipo de dívida, com o cartão de crédito apontado pela Serasa como o principal responsável pelo superendividamento. O governo federal destaca que o programa renegociou R$ 44,1 bilhões em três meses, aplicando descontos médios de 82%, o que demonstra uma alta adesão dos consumidores que buscam limpar seus nomes.
Apesar da eficácia no acerto de contas passadas, especialistas como André Braz, do FGV/Ibre, comparam a ação a tentar esvaziar uma banheira com a torneira aberta, pois novas dívidas seguem sendo geradas. O pesquisador João Mário de França reforça que o cenário econômico atual mantém as famílias em um ciclo vicioso, onde a necessidade de novos créditos acaba resultando em juros elevados, que permanecem muito acima das taxas acessíveis a grandes empresas e ao próprio governo.
O impacto direto é sentido em taxas de juros que superam os 442% ao ano no caso do rotativo do cartão de crédito. Segundo especialistas, a mudança real no cenário de endividamento do brasileiro depende de uma redução estrutural e contínua dos juros, algo que exige uma maior previsibilidade na incerteza fiscal. Sem essas mudanças macroeconômicas, o risco é que as famílias voltem a acumular dívidas logo após saírem dos programas de renegociação.




